sexta-feira, 18 de março de 2011

Se o amor é barato...

Konrado sempre foi um homem obcecado. Sua obcessão sempre foi de buscar a mulher perfeita. Queria ter a família perfeita, os filhos perfeitos... Enfim, a vida perfeita que nunca tivera. Sua mãe era separada. Seu pai preso por estelionato. Seu padrasto? Um sadomasoquista. Qual não foi a sua surpresa ao chegar mais cedo da escola. Lá pelos idos dos seus sete, oito anos... Sua mãe toda em couro sangrando. Ela urrava e seu corpo parecia mais flamejante que qualquer incêndio. Entretanto, ela tinha as suas joias, viagens ao encontro de seu guru em Bangladesh garantidas. Sem mencionar os seus belos cavalos...

Konrado não queria ter esta vida. Queria uma vida perfeita de verdade. Sonhava com o sorriso da moça da lata de Campbell's. A primeira coisa que pensava era em se tornar um homem atraente. Sua mãe sempre lhe disse que o homem atrai uma mulher por quanto, em caprichos, pode satisfazê-la. Meteu-se a trabalhar e virou um dos homens mais influentes no mercado de artes. Konrado Guerrero quem dizia o artista que estava in e aquele que estava out. Neste caminho, aperfeiçoou seu gosto pela comida, bebida, música e livros. Exatamente como sua mãe previra, as mulheres caíam aos seus pés. Sem embargo não era o seu corpo fora de forma e o seu 1,5m que serviam de magnétons...

Eram muitas mulheres. Elas iam e vinham como trens em uma estação de Amsterdã. Konrado sabia fazer a corte. O contato com artistas lhe concedeu perceber o que alguém carente precisa. Foram joias, chocolates finos, champanhes, viagens à Toscana, Istambul, Vale do Loire... A mulher perfeita não aparecia. Já eram mais de 200 calcinhas em sua gaveta. Konrado tinha o hábito de, após a primeira noite, pedir a calcinha da candidata. Acreditava que o líquido vertido na roupa de baixo iria dizer se era a perfeita. Sua mãe almoçou com todas no Olympe. Não emplacava com nenhuma pouco mais de 3 anos. Sentia, em algum momento, que ainda não era a perfeita e acabava com tudo. Onde será que estará a mulher que lhe dará a vida perfeita???

Um dia depois de uma Vernissage, foi ter com uma velha amiga. Amanda. Uma mulher corajosa. Fazia o que fosse em nome do amor. Era uma pintora de muito talento. Muito desorganizada. Sempre se impressionava com o closet de Konrado. Tudo monocromaticamente disposto. Ela sempre dizia que poderia fazer tudo na vida, menos aquilo. Konrado, aflito nos seus 38 anos, pergunta à preciosa amiga: "Quando terei a vida perfeita?" Amanda responde automaticamente: "Schatzie, você encarece o amor. O amor é barato."

Konrado saiu intrigado depois daquela conversa. Dava cada passo pelo Soho pensando naquela frase. Como o amor poderia ser barato? Sua mãe não tinha nada perfeito para ter seus luxos. As mulheres se derretiam a cada presente... Não é possível! Queria investigar bem aquilo.


terça-feira, 15 de março de 2011

Os Porquês

Os Porquês
Eloah Corrêa

Se a proposta é ter um cavalheiro,
por quê viver com um ogro?
Se ele não se interessa em lhe dar prazer,
por quê ainda fazer amor?
Se ele jamais lhe dará família ou filhos,
por quê ainda sonhar?
Se de sua boca exalam fluidos narcotizantes,
por quê sorver tantas mentiras?
Se ele só te ofende,
por quê o masoquismo?
Se ele não aceita as diferenças,
por quê esperar que dê certo?
Se com ele a sensação é de abandono e solidão,
por quê seguir em frente?
Se não não há mais paixão, amor, admiração...
Por quê se colocar nesta prisão?

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O Jantar

Na visão de Laura a comida sempre é uma celebração. O emprego novo, o ingresso no mestrado, a separação do namorado... A comida sempre marcava alguma coisa. Naquela noite não fora diferente...
Chegou da pesquisa àvida pelo creme de espinafre. Desejo acalentado há alguns dias. Comprou dois molhos verdinhos e viçosos antes de partir para a labuta. Sete e meia já estava no mercado. Aquele verde a seduziu e convenceu de que o creme de espinafre seria um sucesso!
Tomou aquela chuveirada rápida e pôs a roupa de casa. Agora era colocar a mão na massa. Olhou para a geladeira, avistou que aquele filé de merluza. Um arrozinho integral também acompanharia bem o seu foco principal. Foi misturando aqueles legumes que formavam um arco-íris no marinex: roxo, amarelo, verde. "Que marravilha!" Ela pensava acreditando, naquele momento, ser uma verdadeira seguidora da nouvelle cuisine. O espinafre se amalgava ao molho com aquela pitada de pimenta branca que provocava. A trilha sonora não foi a costumeira Sarah Vaughan, mas as estupendas mãe e filha Elis e Maria Rita. Um pouco de pinotage lhe propiciava aguçar sua percepção aos perfumes que oliam daquele fogãozinho de 4 bocas. Depois de 40 minutos, tudo estava pronto. A mesa esperava lindamente adornada com a toalha de Beirute presenteada de um admirador. Os castiçais brilhavam. A mesa era para um. A que ela celebraria? A vida. É necessário agradecer por ter nascido uma mulher, sentir os cheiros, os sabores... Como é bom poder oferecer algo a si mesma!


quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O primeiro post

Abri este blog há tempos. O medo e a timidez não me deixaram postar nenhuma das histórias que eu imaginei. Depois de uma oficina, tomei coragem e estou escrevendo a minha primeira história. Dedico esta crônica ao poeta Sergio Vaz que me fez perder o medo.


L'Attente
 Me vi afogada. O aquário estava repleto de sentimentos dúbios: amor, ódio, paz e guerra. Para mim estava tudo muito transparente. Queria que ele pudesse enxergar o suor em meu peito. Suor que carregava a sua espera. A ansiedade que queria que ele adentrasse a porta. Quem sabe poderia trazer rosas? Rosas amarelas sempre foram as minhas preferidas... Mas, se as rosas não viessem, mal não me faria. Eu sofria com o tique-taque do relógio do corredor. A cada hora cheia o São Jorge se iluminava daquele vermelho fumegante. Ele não aparecia. Todos os sentimentos comprimidos no fino e comprido corpo.
Ao ouvir o ranger da fechadura, o seu perfume almiscarado inundou a casa e neutralizou os líquidos que pulsam em mim.
Hellowa Corrêa