sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O Jantar

Na visão de Laura a comida sempre é uma celebração. O emprego novo, o ingresso no mestrado, a separação do namorado... A comida sempre marcava alguma coisa. Naquela noite não fora diferente...
Chegou da pesquisa àvida pelo creme de espinafre. Desejo acalentado há alguns dias. Comprou dois molhos verdinhos e viçosos antes de partir para a labuta. Sete e meia já estava no mercado. Aquele verde a seduziu e convenceu de que o creme de espinafre seria um sucesso!
Tomou aquela chuveirada rápida e pôs a roupa de casa. Agora era colocar a mão na massa. Olhou para a geladeira, avistou que aquele filé de merluza. Um arrozinho integral também acompanharia bem o seu foco principal. Foi misturando aqueles legumes que formavam um arco-íris no marinex: roxo, amarelo, verde. "Que marravilha!" Ela pensava acreditando, naquele momento, ser uma verdadeira seguidora da nouvelle cuisine. O espinafre se amalgava ao molho com aquela pitada de pimenta branca que provocava. A trilha sonora não foi a costumeira Sarah Vaughan, mas as estupendas mãe e filha Elis e Maria Rita. Um pouco de pinotage lhe propiciava aguçar sua percepção aos perfumes que oliam daquele fogãozinho de 4 bocas. Depois de 40 minutos, tudo estava pronto. A mesa esperava lindamente adornada com a toalha de Beirute presenteada de um admirador. Os castiçais brilhavam. A mesa era para um. A que ela celebraria? A vida. É necessário agradecer por ter nascido uma mulher, sentir os cheiros, os sabores... Como é bom poder oferecer algo a si mesma!


quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O primeiro post

Abri este blog há tempos. O medo e a timidez não me deixaram postar nenhuma das histórias que eu imaginei. Depois de uma oficina, tomei coragem e estou escrevendo a minha primeira história. Dedico esta crônica ao poeta Sergio Vaz que me fez perder o medo.


L'Attente
 Me vi afogada. O aquário estava repleto de sentimentos dúbios: amor, ódio, paz e guerra. Para mim estava tudo muito transparente. Queria que ele pudesse enxergar o suor em meu peito. Suor que carregava a sua espera. A ansiedade que queria que ele adentrasse a porta. Quem sabe poderia trazer rosas? Rosas amarelas sempre foram as minhas preferidas... Mas, se as rosas não viessem, mal não me faria. Eu sofria com o tique-taque do relógio do corredor. A cada hora cheia o São Jorge se iluminava daquele vermelho fumegante. Ele não aparecia. Todos os sentimentos comprimidos no fino e comprido corpo.
Ao ouvir o ranger da fechadura, o seu perfume almiscarado inundou a casa e neutralizou os líquidos que pulsam em mim.
Hellowa Corrêa